O mês de maio não chega a ser importante na minha vida, mas marca um marco (viva a redundância), um divisor de águas. Não me lembro que dia foi, mas em algum dia de maio, dois anos atrás, eu percebia que evitar carne vermelha, mas comer frango usualmente e um peixe de vez em quando não era grande coisa. Comecei a ver que não é preciso ser rico para ser vegetariano, pelo contrário, se a grande massa deixasse de consumir carne, que é um produto não muito barato, e com o mesmo dinheiro consumisse vegetais, ficariam nutridos e comprariam variedades maiores de alimentos. Comecei a pensar melhor sobre aquela declaração que certamente todo mundo já ouviu um dia que é “se a gente pensar nessas coisas, a gente nem come...”. Pois é. Pensei. Parei de comer.
Não morri, ao contrário do que algumas pessoas disseram. Não fiquei mais fraco, com menor poder de criação, ao contrário de quando eu comia carne e ficava me sentindo pesado o dia todo. Não salvei nenhum boi de ser abatido, nenhum frango, nenhum porquinho, é bem verdade, mas me juntei a um grupo que cada dia ganha mais adeptos e que, se Deus existe, um dia seremos a maioria. Não mudei de idéia durante esses dois anos, e não tive o disparate de declarar que Deus criou os animai para o homem se alimentar, como um dia uma familiar minha, católica, declarou. Aliás, tive apoio de 0% da minha família, aliás, -1%, -100%. Vejam só, não me tornei um babaca, lunático, que vive vestido de verde, como sempre são os vegetarianos do cinema. Não tive vergonha de falar a frase “pobres vaquinhas”, a qual os carnívoros tanto tiram sarro. Tive recaídas, obviamente, principalmente no começo. Cercado de carnívoros de todos os lados, inclusive minha própria mãe, fica difícil manter a compostura. Mas, a consciência de que matar um animal inocente para satisfazer o prazer sórdido humano, mesmo que eu seja agnóstico, que eu não reze jamais um “pai nosso”, é bem maior. E seu eu continuasse católico – o que deixei de ser com muito orgulho há uns quatro anos – certamente não seria vegetariano, pois se antes existia a sexta-feira santa em que não se comia carne, mas estupidamente ainda se comia peixe, agora, depois do papa Wojti»a, tá tudo liberado. Não convenci ninguém a ser vegetariano também, pelo contrário, depois de algum tempo comecei a perceber que ninguém está disposto a pensar sobre o assunto, e sim, a criticar. Fui questionado sobre a morte dos vegetais, por pessoas que diziam que “de uma forma ou de outra precisamos matar para comer”, dizendo também que o mamão também morre. O que ocorre é que o vegetal é uma forma de vida totalmente diferente. Um galho de uma árvore, pode se transformar em outra árvore, mas é impossível plantar um braço de animal, para que outro nasça. Os vegetais também apresentam sementes, fora as flores, não precisar de fecundação, é só jogar no chão e pronto, e quando você tira uma manga do pé, a mangueira continua viva.
Mas eu ser vegetariano era um acontecimento anunciado. Desde pequeno, quando descobri de onde vinha a carne, que eu pensava: “tudo bem, mesmo?”. Quando eu tinha lá meus seis anos, ainda em Rondônia, lembro que um cabrito foi parar no nosso quintal. Ele veio junto com um povo que eu não lembro quem era. Ficava amarrado à uma árvore por uma corda. Ficou por lá uns três dias, sendo alimentado, eu acho. Fiquei com medo dele, mas não um medo inocente, meu pai me falava para não chegar perto. Eu não assisti ele ser sacrificado, mas vi o sangue no chão depois. Não lembro seu eu comi a carne daquele cabrito, provavelmente sim, mas eu sabia muito bem o que estava acontecendo, embora achasse estranho voltar a andar com meu carro de pedal (daqueles grandões, que a criança entrava dentro, lembra?) naquele quintal, com a ausência do cabrito. Desde então, pensava sobre o consumo de carne.
Certa vez eu vi uma matéria dizendo que todos os queridinhos de Hollywood, naquele momento, eram vegetarianos, e que essa era a receita para a saúde e boa pele. Outra vez, noticiou-se que alguns atletas olímpicos do Brasil estavam com anemia por não comerem carne, embora muito anêmico por aí seja sim, consumidor de carne. Pensei muito sobre o assunto, até decidir só comer carne branca. Carne vermelha, só de vez em quando.
Foi então, que eu comecei a ler artigos na internet que falavam como realmente os animais eram tratados. Até então, eu imaginava que eles eram muito bem tratados durante toda a vida, e morriam letalmente no final. Não. São muito maltratados. Certamente não caberia enumerar as atrocidades feitas a esses seres indefesos. Consciente disso, resolvi não participar mais. Acredito que se existissem mais vegetarianos, os produtores de carne deixariam de ser produtores de carne.
Sem mais delongas, espero ano que vem comemorar meus 3 anos de vegetarianismo, com mais conquistas, e mais certezas, e com muito orgulho de declarar minha condição a qualquer estrupício que me olhe como se eu fosse um E.T.

Czerwono Czarni
“Chłopiec Z Gitara”